SERTÃO/NAÇÃO
A INTER-DIÇÃO DA PÁTRIA NA OBRA DE JOÃO GUIMARÃES ROSA
El fronterizo es, en tantoque existente, un ser remitido a un fundamento en falta que da razón, o la sustrae, de su condicíon de exilio y éxodo. Está sujetado a esa falta de fundamento que lo sostiene y aguanta.
Eugenio Trías, La razón fronteriza: 84-95
Estou, há bastante tempo, tentando colocar em imagens e em palavras o projeto de Nação implícito na obra de João Guimarães Rosa. Tentativa que, não obstante o seu caráter efetivamente marginal e aparentemente an-estético, visa, todavia, manter o texto rosiano na sua antinômica e justamente “sublime” capacidade de dizer o País, dentro de uma perspectiva hermenêutica não convencional, ligada a uma dialética imperfeita entre “local” e “global”, entre “território” e “mundo”. Um modo peculiar, então, de narrar a Nação a partir dos confins, das margens entre instâncias diferentes nas quais se deposita, por assim dizer (e como tentarei explicar mais adiante), o sentido “em exílio” ou em trânsito daquilo que costumamos definir como Pátria.
O modo melhor para entender esta figuração ambígua do Brasil, esta paradoxal (no significado etimológico de “distante daquilo que é comum”) metáfora da comunidade nacional construída por Guimarães Rosa, é talvez o de considerar, de partida, a sua atitude histórico-literária e as implicações onto-lógicas que ela leva consigo ou para as quais ela remete. De fato, não é difícil notar que os seus textos não só se colocam na encruzilhada entre o romance regionalista e a dissolução da narrativa clássica, entre o realismo na representação e o experimentalismo mais avançado – dissolvendo, aos poucos, qualquer referência sistemática, neutralizando qualquer paradigma –, mas tematizam e estruturam, mais em profundidade, essa hesitação entre duas dimensões de Sentido, remetendo para uma zona dúbia, para uma região/razão híbrida e, como veremos mais tarde, “liminar”, que põe em xeque a dialética tradicional. E basta, por isso, considerar a forma em que é colocada a pergunta inicial e decisiva em Grande Sertão: Veredas: «O diabo existe e não existe?» – exemplo claro daquela lógica não-disjuntiva que voltaremos a encontrar ao longo da obra rosiana e que parece dobrar a interrogação sobre si mesma, tornando o romance, como o lugar em que e de que se fala, uma “espera enorme”, ou seja, uma espacialização infinita da dúvida, um dar lugar e tempo a aquilo que não tem resposta ou cuja resposta está apenas na tautológica re(pro)posição da pergunta.
Acho, então, que pensar a Nação com Guimarães Rosa e através dele, mais do que destrançar e seguir os múltiplos fios da textura complexa tecida por ele, deveria ser um modo para tornar evidente a existência dessa zona de hesitação e de permutação, desse enredo problemático em que fica presa uma “figura” nacional: uma espécie de lugar emblemático e complexo em que se refletem e se cruzam as dúvidas sem solução sobre o Brasil. Um Brasil, de fato, perenemente suspenso entre a afirmação duma Pátria e a persistência de mil pátrias, entre universalismo e particularismo, entre cidade e interior, entre progresso e atraso, entre primeiro e terceiro mundo. Na suspeita prévia de que a solução do dilema esteja, mais uma vez, dobrada na pergunta; de que, como o próprio Guimarães Rosa parece sugerir, a verdade de uma Nação – que não é “uma” – só pode se descobrir e, ao mesmo tempo, se encobrir no enigma indecifrável de uma identidade híbrida, de uma nacionalidade “neutra” que se arrima e se exila numa margem terceira e (im)possível.
Davi Arrigucci escreveu, a propósito de Grande Sertão, que
estamos […] diante de diferentes formas de narrativa misturadas, correspondendo no mais fundo a temporalidades igualmente distintas, mas coexistindo mescladas no sertão que é o “mundo misturado”. Não é à toa que esse é o lugar do atraso e do progresso imbricados, do arcaico e do moderno enredados, onde o movimento do tempo e das mudanças históricas compõe as mais peculiares combinações [Arrigucci: 17]
Com efeito, a escolha de espelhar, por um lado, o Brasil no sertão e de apresentar, pelo outro, o sertão como metonímia do Mundo – isto é, de incluir o País nos confins da Região e de dilatar a dimensão regional até a con-fundir num espaço-tempo universal – acaba por delinear uma ideologia peculiar em que se combinam, se misturam sem nunca se resolver ou se dissolver uma na outra, duas diversas (e até opostas) imagens da Nação: uma ligada, mais uma vez, à visão histórica de um Brasil-arquipélago, composto por junção de diferentes tradições ou de realidades distintas (raciais, étnicas, geográficas...); a outra, considerando o País na sua totalidade ideal e, ao mesmo tempo, característica, que o coloca, como (id)entidade única e incontrovertível, como espaço-tempo continental, no contexto histórico e sócio-político internacional.
O objetivo de Guimarães Rosa, nessa articulação problemática, não foi tanto o de re-descobrir ou de representar o País, quanto sobretudo o de pensá-lo de forma complexa e ambivalente, assentando numa razão/região “eventual”; figurando (isto é, colocando em figuras) possíveis dimensões hermenêuticas ou de sentido nas quais instalar e com-preender as questões sem resposta colocadas pela história brasileira. E nessa perspectiva, a prática da representação literária parece estar inscrita dentro de uma lógica – seja mesmo de uma lógica a-sistemática ou pré-liminar, fora e antes de qualquer definição unívoca – que pretende tomar e dar conta da Nação na integridade da sua essência e na profundidade da sua existência histórica. Uma preocupação, aliás, que assenta no paradoxo de uma interdição do seu objeto, de uma contínua elisão da dimensão (física e ideal) a que continuamente alude: o País, em outros termos, pode ser considerado o centro censurado, o alvo oculto de um interesse divagante, que fica aquém ou vai além do Território e das suas instâncias, que evade ou transgride toda concepção tradicional da Pátria.
De fato, um dos traços mais freqüentemente apontados na prosa rosiana é o seu enraizar-se na dialética sem mediações entre local e global, entre região e mundo, entre particular e universal, entre estória e história: para citar ainda o importantíssimo estudo de Arrigucci (que por sua vez contém uma citação implícita de outro importantíssimo estudo sobre a obra-prima de Guimarães Rosa): «a passagem do grande sertão ao vasto mundo é imediata» [Arrigucci: 21][1]. Ora bem: se a afirmação é com certeza justa, isto é, se não podemos perceber nenhum medium definido entre os dois pólos, se não conseguimos detectar um tertium, alguma coisa como um lugar exato,no interior desse vaivém entre duas dimensões, é também possível que assim seja porque o fundamento invisível e imaterial da obra está justamente na “passagem”, no caráter precário e impontual do trânsito – ou, querendo utilizar uma palavra muito rosiana, da travessia. Traduzindo tudo isso em termos políticos ou ideológicos, pode-se enfim inferir que o Nacional é, sem mais nem menos, o fundamento recalcado, o princípio oculto sobre o qual se torna possível instituir qualquer dialética espácio-temporal: o País seria, enfim, o inter-dito que sem parar é “dito entre” a região e o universo, entre a dimensão local e a global.
Essa instância intercalada que a palavra nação torna precariamente visível fica então sepultada nas entrelinhas do texto de Guimarães Rosa, sendo porém aquilo que habilita a pensar todas as contradições; aquilo que torna possível não só o trânsito entre o “grande sertão” e o “vasto mundo”, mas a apreensão do quid medium, daquela dimensão “anárquica” (ou seja, sem princípio e sem rumo), que os dois símbolos, na sua abstração espácio-temporal, ao mesmo tempo escondem e tornam momentaneamente visível no seu encontro – naquela encruzilhada diabólica, enfim, em que região e universo, indivíduo e coletividade, duvidosamente se declaram e reciprocamente se apagam. Quero dizer, com Homi Bhabha, que a nação, também na obra rosiana, pode ser interpretada como uma metáfora colmatando um vazio, como uma figura transferindo o significado e o “pertencer” originários ao longo de uma “passagem intermediária” [Bhabha: 470]. Quero também dizer que essa ausência que configura uma presença ou essa presença ausente adquire um papel fundamental e fundador em relação às duas noções entre as quais se coloca. E basta, por isso, refletir um pouco sobre uma das parábolas que eu considero mais significativas e evidentemente políticas da produção rosiana como a estória contada em “A terceira margem do rio”. Relendo o texto na perspectiva que acabo de esboçar, acho, de fato, evidente que o personagem sem nome ocupando um lugar mediano entre as duas bordas, essa imagem paterna que se atribui uma tarefa aparentemente insensata, esse homenzinho teimoso que teimosamente se arrima e se ancora no centro impossível de uma contradição, dando-lhe por isso, com o seu permanecer obstinado nele, solidez e visibilidade – acho enfim que essa figura pode com facilidade ser interpretada como uma metáfora não apenas filosófica, mas também ou sobretudo histórica e política do Brasil.
Esse instalar-se na duplicidade, esse habitar penoso a eventualidade que se descortina no interior de toda dialética e de toda realidade, acaba, de fato, por garantir a possibilidade de um tertium, a existência de um medium que tem, ao mesmo tempo, a inconsistência de uma passagem e a certeza de um ancoradouro. E essa figura sem garantias (que, como todas as “figuras”, habita no lugar intermediário entre duas verdades) parece, por sua vez, disponível a representar ou a resumir sem resíduos um país, como o Brasil, que nos coloca, certamente, diante de uma série infinita de contradições, de verdades antinômicas (costa/interior; rico/pobre; cidade/campo; branco/preto…), apresentando-se todavia como o espaço de permutação ou de diálogo em que tudo encontra o seu paradoxal equilíbrio (sertão e cidade; progresso e atraso; antigo e moderno; anacronia e sincronia…).
A dimensão intermédia e hipotética que é gerada pelos dois espaços que ela discrimina, sendo ao mesmo tempo aquilo que, sem lugar nem tempo, dá todavia lugar e tempo às dimensões que ela separa – essa “terceira margem”, enfim, postulada por Guimarães Rosa se oferece, nessa perspectiva, como a metáfora concreta de um País que, partido por mil fronteiras, atravessado por inúmeras contradições, dividido em tantas pequenas pátrias, encontra porém a sua identidade complexa “ao longo de uma passagem”, ou seja, na combinação contínua das diferenças, nesse lugar neutro e “terceiro” que não é nem uma coisa nem outra e é duas coisas ao mesmo tempo. A Pátria, nesse sentido, não seria mais do que uma dérive do imaginário, ou para dizer melhor, ela se definiria, sem na verdade se definir, apenas nesse modelo performativo, localizando-se no lugar vazio do pai: modelo paterno delimitando e, ao mesmo tempo, preenchendo, com seu gesto e com seu silêncio, o espaço virtual da Pátria, cuja história se configura, então, como uma linhagem interrompida, como uma prática que não se enquadra em nenhum paradigma, não cabe em doxa nenhuma, mas que, apesar disso, “faz” um sentido possível e paradoxal, o cria continuamente ex nihilo – ou seja, o cava e o extrai do Nada que está entre dois Sentidos contrapostos e reais.
A crítica mais recente tem, aliás, sublinhado o valor, ao mesmo tempo, emblemático e hermenêutico do sertão rosiano em relação ao Brasil e é significativo que, num recente e importante livro sobre a construção da identidade brasileira, ou melhor, sobre o processo de nation-making, a autora tenha colocado em epígrafe às suas “considerações finais” uma citação do romance rosiano. Mas aquilo que eu acho sobretudo interessante, para encaminhar também o meu discurso para a sua conclusão, é a associação que, a certa altura do seu Um sertão chamado Brasil, Nísia Trindade Lima propõe entre sertão e fronteira, escrevendo, explicitamente na esteira de Rosa:
O sertão parece estar em todo lugar em que se anuncie o desconhecido, o espaço social a conquistar. Nesta perspectiva, para os propósitos deste trabalho, recorrer ao conceito de fronteira significa pensar o sertão enquanto espaço simbólico, cujos contornos geográficos seriam de difícil delimitação [Lima: 44].
Pois bem: aquilo que estou tentando confusamente aplicar ao (e, ao mesmo tempo, inferir do) discurso rosiano é justamente esta natureza “liminar” do Grande Sertão, este seu ajustar-se entre região e mundo para identificar de modo metafórico o espaço-tempo da Nação.
Aliás – como já tentei mostrar em outras leituras – a questão dos limites, o problema da divisão e das fronteiras, constitui uma verdadeira obsessão para Guimarães Rosa. Acho, todavia, que seria bom dar um passo para a frente e afirmar que se, como foi magistralmente sublinhado por Willi Bolle, o sertão é “uma forma de pensamento”, a única lógica possível que vigora sob essa estranha forma de pensar pode ser, justamente, só uma razão fronteiriça. É aqui, com efeito, nesse raciocinar que se espaça, que toma lugar e tempo, e, de modo inverso, nesse cronótopo tornando-se idéia a ser pensada, que encontra o seu cerne e o seu centro espantoso a questão nacional pro-posta pelo escritor mineiro. Já que se a Nação é o inter-dito, a única maneira de a pensar consiste num “pensar entre”, numa lógica liminar que não seja apenas a indicação duma fronteira onto-lógica entre local e global, mas a condição racional de existência desse “ser em ausência” que se localiza, ou melhor, que “se asila” apenas num “exílio” voluntário [Nancy: 38-39]; que se materializa na forma de um “êxodo” perene em relação ao espaço e ao tempo pátrios ou paternos. É esse, de fato, o único modo de viver (pensar, dizer…) o Brasil como Nação: o viver como “banimento” e, ao mesmo tempo, como lugar do “abandono” [Agamben: 47-48], alcançando o seu sentido dúbio apenas no monólogo a duas vozes de um narrador “bandido/banido”. E o conceito de Pátria continuaria, assim, sendo o enigma que só pode habitar um lugar mediano e “terceiro”: o símbolo, enfim, que diabolicamente está suspenso nas encruzilhadas; a noção duvidosa que se incorpora e se esvai nas figuras híbridas ocupando o centro do labirinto narrativo desenhado por Guimarães Rosa.
Seria fácil apontar para toda uma série de referências teóricas – que, a partir sobretudo de Hegel e passando por Heidegger, Wittgenstein e Benjamin, chegam até Eugenio Trías, o último, grande explorador dessa Razón fronteriza, cujas considerações, de fato, acabo de parafrasear – seria, então, fácil reconstruir toda uma genealogia filosófica ilustrando a importância de (se) pensar em relação ao limes, mas isto nos levaria muito longe e a minha intenção foi, desde o início, apenas a de recuperar ao sentido esta noção sem sentido próprio que é a idéia nacional na obra de Guimarães Rosa: um limiar ilocável e sem geografia, em que, por paradoxo, a geografia brasileira encontra a sua história improvável, em que regionalismo e universalismo coincidem na sua (in)diferença, em que o sertão real se torna um grande sertão. Mais uma vez, narrar a nação – nessa ideologia anárquica, sem nacionalidade e sem passaporte, e todavia plenamente nacionalista, isto é, programaticamente pátria e paterna que se delineia na obra rosiana – pode significar se deter na fronteira discursiva que diz apenas a falta, que discorre, justamente, entre desejo e lembrança, materializando-se no vazio que se abre em qualquer dúvida, consistindo na hesitação duma passagem que não passa, habitando aquela margem primeira e última que só se diz (e se pensa) na sua inter-dição.
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———— La razón fronteriza. Barcelona: Destino, 1999.
[1] A mesma idéia, aliás, com a mesma referência ao famoso estudo de Antonio Candido sobre “O homem dos avessos”, já tinha sido defendida, quase com palavras idênticas, por Roberto Schwarz: “Em Grande Sertão a História quase não tem lugar […]. Enquanto em Dr. Faustus a trama, no seu caminho para os valores universais, passa detidamente pelo destino alemão, em Guimarães Rosa a passagem da região para o destino humano, tomado em sentido mais geral possível, é imediata. O sertão é o mundo, mostra Antonio Candido” [Schwarz: 50].